Faz mês que não escrevo. Culpa do monitor que queimou, da assistência técnica que embromou e da cuca que o carnaval levou.
Pensei andando em escrever sobre grandes personagens do Rio. Não esses que frequentam os programas da Ana Maria Braga ou que cobram cachê de R$ 10.000,00 pra perfumar um evento beneficiente o dom do seu pum. Muito menos aqueles que entram pela entrada principal do Maracanã e batem na mulher às 3 da manhã.
Quero falar sobre o sujo, o invisível constante, o que já virou paisagem pra turista não ver. É neste que está a alma da cidade do Rio de Janeiro, o que ela tem de mais vil e podre, seus problemas expostos, suas contradições e soluções abertas.
Nesses dias não parei de pensar no Clécio, vulgo Zé Pontinha, que habita a Zona Sul do Rio de Janeiro, digo, Ipanema e Gávea. Entre estes dois bairros existe o Leblon ou a Lagoa, mas nunca o vi fazendo o traslado. Aliás, quem tiver visto ele em outro lugar, por favor, comunique a este blog.
Zé Pontinha poderia ser caracterizado por qualquer despreparado como um mendigo, shortzinho dos anos 80, um pouco de perna na sujeira que lhe toma conta, corte de cabelo das ruas, mas ele tem uma característica muito peculiar que os difere dos outros: sua incessante busca por pontinhas de cigarro e/ou cannabis. O que estiver à frente.
É bem comum vê-lo pedindo pontinhas nas rodinhas do Posto 9, no Pires, bar-lar dos estudantes da PUC-Rio, ou na Nascimento Silva em Ipanema, que eu acho que é onde ele faz sua morada. Ali mesmo, na calçada, não tem "caô" não.
Batendo os dedos que seguram o cigarro, Zé pontinha nada fala, aproxima-se dos fumantes e com seu gesto demonstra sua vontade ímpar de desfrutar seu céu na terra: a ponta. Depois, teletransporta-se para um dos seus outros dois pontos preferidos, tal qual o primo pobre ou um Robin do Capitão Presença, personagem dos quadrinhos que joga a fumaça pro ar.
Ao mesmo tempo em que ele representa um sistema que leva as pessoas à degredação moral, psíquica, e social, à falta de qualquer direito básico, é também um alerta para a situação da cidade do Rio de Janeiro, de extrema pobreza, de falta de amparo da Prefeitura e de inexistência de solidariedade dos mais abastados.
Não proponho soluções individuais para o caso dele. Até penso em conversar com ele, não sei se ele fala ou se tem interesse no meu papo. O que acontece é que a Prefeitura deve prover moradia digna para essas pessoas, que hoje estão à margem de qualquer programa social. E que seja no meio de Ipanema ou na Gávea mesmo!
Obs.: Quem tiver curiosidade de ver quem é Clécio, Zé Pontinha, aqui vai o link de um fake dele no Orkut. http://www.orkut.com.br/Main#Profile?uid=15535041310092943742