"Lindalva, amor, não repare não essa mancha de gurdura nesse papel, que é guardanapo de bar bêbado de óleo de croquete. Tava tirando a barriga da miséria quando lembrei de ti, de que eu tinha prometido te visitar. Era 5 e meia da tarde, eu tinha acabado de largar a fazenda, passei no córrego e fui guiado pela necessidade até o boteco de Dona Mira.
Agora, já é 15 pra meia noite. Demorô porque eu encontrei com os menino da fazenda de seu Teobaldo e a gente, que não é santo, tomemo umas branquinha.
Joguemo um palavreado fora e aí já tinha ido bem umas 3 hora. Fui acertar as conta com Dona Mira e, arriégua!, só senti o safanão bradando na planta de meu ouvidor esquerdo. Era siô Viana, sem camisa, com aquela cicatriz de cruz remoída que ele tem no peito. Me disse que eu tava devendo uma conta dum carteado jogado - confesso que ladroei - numa pensãozinha região de Morro Verde e que, hoje, veja só, Lindalva, eu sentir o bafo do demo. Na hora, me dobrei-lhe as pernas e pus a falar que nem pintinho com os olho bem fechadinho. Quando eu não tava mais enxergando nada, eu me lembrei do dia em que Miguelzinho, nosso filho, veio e você foi. Não sabia pra quem chorar naquele dia. Acabei abandonando o gurizinho no colo de tia Inácia.
Foi mesmo triste te ver naquela caixinha de madeira, sem alça, cupinzada. Ter que agradecer ao pessoal na rua que ajudou a te levar. Tava tão bobo, que nem me alembro onde tu foi enterrada. É por isso que tô te escrevendo essa carta.
Siô Viana, esse baba ovo de patrão, não conseguiu marcar meu encontro com o Cramunhão não. Tô aqui, vivinho. Só peço desculpas também pelo pouquinho de sangue meu que escapou sem querer nessa carta. Não foi minha intenção, tentei até butar tudo pra dentro de mim de novo.
Num sei em que terra que eu te butei debaixo não, flor. Essa carta aqui te entrego ainda hoje pessoalmente."
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